Lagoa do Pires, 15 de Setembro de 2026
Olá, meu nome é Clézia Rodrigues dos Santos. Tenho 33 anos e moro na Fazenda Pé da Serra, no município de Uauá, Bahia.
Minha relação com a escola sempre foi muito boa. Eu era uma criança que gostava de verdade de ir às aulas e de participar de tudo. No entanto, a vida na roça impõe realidades duras e, em determinado momento, minha trajetória escolar precisou ser interrompida.
Ajudar meus pais na roça fazia parte da nossa sobrevivência diária. Na lida do campo, o trabalho é pesado, contínuo e exige o esforço de toda a família. Embora eu entendesse a necessidade de apoiar meus pais, ter que abrir mão dos estudos foi um momento de profunda tristeza. Ver o caminho da escola ser substituído pelo trabalho diário trouxe uma sensação de impotência, pois o desejo de aprender continuava vivo dentro de mim, mas as circunstâncias da vida exigiam meus braços na terra, e não minha mente nos livros.
Naquela época, o principal fator que dificultava meus estudos era a necessidade imediata de trabalhar na roça para ajudar no sustento da casa. Logo depois, a vida seguiu seu curso e eu tive filhos. Casar e cuidar das crianças trouxe uma nova rotina de responsabilidades domésticas e maternas que consumia grande parte do meu tempo. A dupla jornada entre o trabalho no campo e os cuidados com a família colocou o sonho de estudar em segundo plano, fazendo com que eu desistisse da escola naquele momento.
Anos mais tarde, quando decidi que era hora de retomar os estudos, o mundo foi atingido pela pandemia de Covid-19. Tentar estudar em casa foi um desafio imenso e solitário. Sem o suporte presencial dos professores, sem a estrutura da sala de aula e dividindo o espaço doméstico com as tarefas do lar e os cuidados com os filhos, meu rendimento não era o mesmo. A falta de foco e a dificuldade de conciliar tudo dentro de casa pesaram tanto que acabei desistindo mais uma vez.
Esse período em que fiquei longe dos livros me trouxe muitos aprendizados, mas também abriu meus olhos para uma realidade: a falta de estudo faz a gente perder grandes oportunidades. Percebi que o mercado de trabalho exige qualificação e que, sem o estudo formal, muitas portas se fecham. Deixei de ter acesso a empregos melhores, à estabilidade financeira e à possibilidade de me desenvolver profissionalmente mais cedo.
Retornar ao ambiente escolar depois de tantas idas e vindas foi uma mistura de frio na barriga com um forte sentimento de vitória. Olhar para a lousa, sentar na carteira e interagir com os colegas me trouxe a certeza de que estou no lugar certo. É a retomada da minha própria história e o resgate daquela Clézia que sempre gostou de estudar.
O que está sendo mais gratificante hoje é saber que estou me preparando para o mercado de trabalho e buscando mais conhecimento. Além disso, a maior recompensa é a sensação de estar realizando o sonho de terminar os estudos e me formar.
Olho para o futuro com esperança de muitas coisas boas e grandes oportunidades. Meu objetivo está traçado: quero fazer uma faculdade de Pedagogia ou de Enfermagem, porque são áreas com as quais me identifico. Quero continuar aprendendo, adquirir novas experiências e ampliar meus conhecimentos para a vida.
—Clézia Rodrigues dos Santos, 33 anos, Estudante da Educação de Jovens e Adultos do Campo do Colégio Estadual do Campo Integração Lagoa do Pires