Meu nome é Josafá de Almeida. Nasci em Uauá e passei a maior parte da minha vida no povoado de Barnabé. Quando penso na minha infância, uma das lembranças que aparecem é o caminho para a escola. Eu devia ter uns seis ou sete anos quando comecei a estudar. A escola ficava a cerca de meia hora de casa, e eu ia andando. Pelo caminho, um colega me esperava, depois outro, e assim a gente ia formando uma fileira até chegar lá. Markdown colado Markdown colado
A escola era cheia de crianças e até de passarinhos. Eu gostava principalmente das brincadeiras: futebol, carrinho, amarelinha e outras que fazíamos juntos. Para falar a verdade, naquela época eu não era muito fã de estudar. Gostava bastante dos colegas, de conversar e de brincar. Também era um menino que gostava de implicar e, às vezes, de brigar. Hoje, quando lembro daquele tempo, percebo como eu pensava diferente. Markdown colado
Por volta dos treze ou catorze anos, minha história com a escola foi interrompida. A escola que havia no povoado fechou e os estudantes precisaram ir para outro lugar. Ficou mais longe e, ao mesmo tempo, eu já trabalhava na roça ajudando minha família. A rotina começava cedo: às cinco ou seis horas da manhã, eu já estava cuidando do chiqueiro, do gado e seguindo para a roça. Quase tudo era feito andando. Como eu mesmo digo, era “na canela”. O dia só terminava quando estava escurecendo. Mesmo cansado, ainda sobrava vontade para correr e jogar bola. Markdown colado
Naquele momento, eu não pensava em voltar para a escola. Para mim, os estudos tinham terminado. Continuei trabalhando, e o tempo foi passando. Na roça, aprendi muitas coisas: cuidar dos animais, tirar leite, cortar palma, plantar, colher, comprar e vender animais e conhecer o tempo certo de cada produção. Também aprendi a negociar, tomar decisões e assumir responsabilidades. Muito do que eu não sabia fui aprendendo com a própria experiência. Markdown colado Markdown colado
Mesmo sem ter continuado os estudos, construí coisas das quais me orgulho. Com muito trabalho, conquistei minha casa, meu carro, minha moto e formei minha família. Tenho um filho. Essas conquistas me mostram que os anos fora da escola também foram anos de aprendizado, esforço e luta. Markdown colado
Com o passar do tempo, porém, comecei a perceber que “o negócio era ruim sem estudar”. Algumas oportunidades exigiam uma escolaridade que eu não tinha. Em uma dessas situações, apareceu um emprego, mas eu não conseguia a vaga porque não tinha concluído os estudos. Foi quando pensei: “Vou ter que estudar.” E decidi procurar novamente a escola. Markdown colado Markdown colado
Voltar depois de tantos anos não foi simples. No primeiro dia, fui bem recebido, mas senti felicidade e também um pouco de vergonha. Eu não conhecia muita gente e tinha insegurança por causa da minha leitura, que ainda era pouca. Olhava para os outros e achava que eram mais espertos do que eu, e isso fazia com que eu me sentisse lá embaixo. Aos poucos, essa sensação foi mudando. Hoje, uma das coisas boas de estar na escola é conhecer os colegas e os professores e, como eu mesmo digo, “abrir mais a mente”. Markdown colado
A distância ainda é uma dificuldade. Venho de moto para estudar. Mas o Josafá que voltou para a escola não é mais aquele menino que saiu dela tantos anos atrás. Antes, eu não pensava muito nas consequências. Hoje, penso mais, tenho outras expectativas e valorizo cada oportunidade. Hoje em dia, não perco mais as aulas. Markdown colado
Quando terminar meus estudos, espero que novas possibilidades apareçam. Gostaria de conseguir um trabalho menos pesado do que o trabalho na roça. Isso não significa esquecer ou diminuir tudo o que o campo me ensinou. Pelo contrário: foi na roça que construí grande parte da minha vida e adquiri conhecimentos que carrego comigo até hoje. Mas agora também sei que a educação pode abrir caminhos que antes estavam fechados para mim. Markdown colado Markdown colado
Se alguém ler a minha história, gostaria que entendesse uma coisa sobre mim:
“Sou um guerreiro, pelas coisas que já passei.”